Artigos | Postado no dia: 1 outubro, 2026
IA na advocacia: A governança vem antes da ferramenta
A inteligência artificial entrou na pauta dos escritórios pela porta mais óbvia: a ferramenta. A discussão costuma começar pela escolha do produto, comparação de preços, funcionalidades, promessas de ganho e demonstrações comerciais. É natural. O problema é começar por aí e achar que a escolha da plataforma resolve o problema.
Antes de contratar qualquer solução, o escritório precisa olhar para dentro: como o trabalho é feito hoje, quem responde pelo resultado entregue ao cliente e onde a ferramenta pode ser aplicada. E mais importante: como será aplicada.
Foi essa a lógica que orientou a criação do Comitê de Inteligência Artificial da Pellon. A experiência mostra que o limite de eficiência de um escritório raramente está na falta de tecnologia. Quase sempre está na falta de método, fluxos, critério e governança.
A decisão sobre inteligência artificial não começa na ferramenta
Comparar ferramentas é a parte fácil. São inúmeras disponíveis no mercado e praticamente todas entregando um bom resultado. Há preço, demonstração, promessa de ganho e casos de uso bem escolhidos. A decisão relevante é outra: que tarefas podem ser apoiadas por IA, como elas serão revisadas e quem assume o resultado final.
Uma licença se compra num piscar de olhos na internet. Critério de uso, padrão de revisão e definição de responsabilidade levam tempo, dão trabalho e não se copiam de outro escritório. Por isso, duas bancas com a mesma ferramenta podem chegar a resultados completamente diferentes.
A adoção de IA é, antes de tudo, uma decisão sobre organização do trabalho. Quando não há padrão, cada usuário cria o seu. E o escritório passa a ter tantas formas de usar a tecnologia quantas forem as pessoas com acesso a ela.
Mapear o trabalho antes de automatizá-lo
Por isso, a primeira frente do comitê foi mapear os fluxos de trabalho das áreas. Pode parecer burocrático, mas não é. O mapeamento mostra como o trabalho realmente acontece, e não como imaginamos que aconteça.
Esse levantamento costuma revelar controles repetidos, etapas que perderam sentido e revisões feitas só porque um problema antigo um dia justificou aquele cuidado. Parte da eficiência aparece antes mesmo da tecnologia, apenas com a reorganização do fluxo.
Automatizar um fluxo ruim não corrige o problema. Apenas faz o erro andar mais rápido, em escala maior e com aparência de processo. A IA só entrega o que promete quando atua sobre um trabalho que alguém entendeu antes.
Por que medir só velocidade distorce a decisão
O debate sobre IA costuma medir tudo em tempo economizado, o que é limitado. Se o escritório mede só rapidez, corre o risco de melhorar a parte errada do trabalho.
Mais importante do que a rapidez é saber se a IA está entregando qualidade e se está sendo aplicada no ponto correto do fluxo de trabalho. Não adianta, por exemplo, gerar uma resposta em um minuto se essa resposta não se encaixar adequadamente no fluxo de trabalho.
Por isso, produtividade precisa ser acompanhada de consistência e revisão do fluxo de trabalho.
Governança de IA: a responsabilidade que segue humana
Nenhuma tecnologia transfere responsabilidade profissional. Quem assina responde pelo trabalho inteiro, inclusive pelo trecho produzido com apoio de IA. A governança serve para organizar onde a revisão precisa acontecer e quem responde por cada etapa.
Esse não é apenas um entendimento interno. As recomendações do Conselho Federal da OAB sobre IA generativa reforçam o dever do advogado de supervisionar o resultado, conferir informações, preservar o sigilo e manter transparência com o cliente. A regulação também caminha nessa direção. A Resolução CNJ nº 615/2025 e o Projeto de Lei nº 2.338/2023 tratam a supervisão humana como condição para o uso responsável de IA.
Na prática, governar é definir padrões mínimos de qualidade, revisão e uso, com controles específicos para dados sensíveis. O comitê existe para tirar a adoção da esfera individual e transformá-la em decisão institucional, registrada e revisável.
Treinamento entra nessa mesma lógica. Uma regra que ninguém entende vira aplicação por aproximação. Quando a equipe entende o motivo do padrão, consegue aplicá-lo também nos casos que a regra não previu.
A experiência institucional da Pellon
A Pellon instituiu seu Comitê de Inteligência Artificial com o objetivo de promover a adoção estruturada, segura e eficiente da IA, reunindo as diretrizes de governança e a leitura institucional do escritório sobre o tema. Mais do que promover ganhos de produtividade, a IA deve contribuir para elevar a qualidade técnica, fortalecer a governança, aprimorar a gestão do conhecimento e permitir que nossos profissionais concentrem seu tempo nas atividades que verdadeiramente geram valor para os clientes.
A experiência empresarial da Pellon mostra que estrutura de decisão não se improvisa. É com esse olhar que o escritório conduz a adoção de inteligência artificial: tecnologia para ganhar eficiência, governança para preservar qualidade e discernimento humano para decidir o que realmente importa.
