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03/06/2022 | Publicado por Monica Cerginer

Brokerslink 2022: A saída é negociar muito para obter boas condições em contratos de seguros

O cenário mundial exacerba os riscos e traz oportunidades para o setor de re/seguros. Com “hard market”, corretores tem uma trabalho triplicado para conseguir boas taxas

Hard market. Eis a expressão que mais incomoda os gestores de riscos. Este jargão técnico em seguros significa que as condições de negociações de seguros estão difíceis. Preço elevado, franquias assustadoras e, mesmo assim, não há oferta de seguros para alguns nichos. Para clientes com histórico de sinistros, a negociação é difícil e o preço chega a ter elevação de até 50%, mas não impossível. Clientes que sequer usaram o seguro reclamam mais. “Temos uma empresa exemplar, que investe em gerenciamento de risco e segurança e não registrou um incidente que estivesse fora da franquia. Meu financeiro não aceita que mesmo assim temos de pagar um aumento de quase 25% na renovação”, comenta um gestor de risco que pediu anonimato.

Este “drama” foi o tom dos debates na Brokerslink Conference 2022. A boa notícia é que o hard market uniu ainda mais os corretores, seguradores e consultores de riscos. As mais de 360 pessoas, sendo 40 gestores de riscos de grandes corporações ao redor do mundo, se dedicam ao networking. Todos buscam entender mais seus riscos para obterem melhores condições no contrato de seguro, que se torna ainda mais necessário num cenário de guerra, inflação elevada, mudanças climáticas preocupantes, pandemias e insegurança alimentar.

Um grande suspiro de todos é que esse debate do cenário complexo mundial acontece em Porto. Portugal, uma cidade acolhedora e “friendly”, como disse Rui Moreira, o prefeito de Porto. “Eventos como esse são importantes para nossa cidade. Queremos mantê-la pequena e aconchegante. Investimos muito em segurança, limpeza, escolas internacionais, parques, esportes e cultura para atrairmos pessoas interessantes e investidores”. Anthony Lim, de Singapura, membro do board da Brokerslink, agradeceu. “Estamos encantados com Porto. Além de ser uma cidade segura e limpa, as pessoas com as quais tivemos contatos, em lojas e transporte, tocam nosso coração pela educação e atenção com que nos tratam. O que mostra que são felizes por viver aqui. Obrigada”.

Apesar de todo o acolhimento de Jose Manuel Fonseca, CEO da MDS e Brokerslink, e da cidade, o clima de negócios no setor de re/seguros sugere um período importante para consultoria de risco e parceria entre consultores de riscos e corretores de seguros. Um mundo arriscado, seguradoras vendedoras de proteções, resseguradores buscando rentabilizar o capital e gestores de riscos extremamente preocupados em realmente serem os guardiões do patrimônio dos acionistas. “Companhias e consumidores são flexíveis para se adaptarem às circunstâncias. Mas ter previsibilidade é a melhor saída. A adaptação é um core do negócio, que precisa ser analisado do ponto de vista do longo prazo. Crises criam oportunidades. Onde há risco há oportunidades. Mas é preciso antecipar o futuro para que todos possam preparar os consumidores de seguros e organizar suas estratégias”, diz Fonseca.

Andreas Berger, CEO da Swiss Re Corporate Solutions, concorda com Fonseca.  “O conflito entre Ucrânia a Rússia exacerbou a exposição ao risco, principalmente no segmento aéreo, marítimo e muitos outros riscos com a insegurança que traz a violência política, com riscos cambiais, para as quebras das cadeias logísticas e para os preços. A inflação atrapalha, mas sabemos que é um problema de curto prazo. Mas o hard market do setor se mostra ser mais longo do que imaginamos”, afirmou. “Diante de riscos crescentes e maiores custos e perdas, as empresas precisam identificar e repensar os pontos fracos em suas cadeias de suprimentos”, acrescentou.

Seguro para empresas aéreas está mais caro com os confiscos da Rússia

Marcel Shad e Mark Hue Williams, da Piiq Risk Partners, especialista em riscos da aviação e do aeroespacial afirmaram que os riscos se estendem por todos os segmentos de mercado desta área e que são as companhias aéreas, fabricantes e prestadores de serviços para setor, a aviação geral de pequenos aparelhos e para segmento da Espaço e Satélites. Principalmente o risco cibernético.

O mercado de riscos cibernéticos tem se expandido rapidamente como mostram os números. De US$ 7,8 bilhões em 2020 para US$ 9,5 bilhões em 2021 e a solução para as aéreas precisam de apólices únicas e não de contratos padrão de outros segmentos, pois este setor tem necessidades especificas e precisa de especialista.

Segundo Shad e Williams, a atividade gera 90 milhões de empregos no mundo e enfrenta uma situação de falta de pilotos à escala global. Chamaram a atenção para os efeitos da guerra na Europa exemplificando que só a aviação russa vai custar em indemnizações 5 a 10 vezes o valor dos prémios anuais que gera.

Sete grandes efeitos da competição entre grandes potências

Bernardo Pires de Lima, especialista em política internacional, afirma que o complexo cenário político no mundo, apesar de pessimista, precisa ser bem entendido pelos gestores de riscos. A competição geopolítica muda os negócios, e quanto mais dominarem quais os impactos que a guerra, ataques cibernéticos, insegurança alimentar, polarização política, sanções, tecnologia e recursos naturais causam aos negócios, mais poderão ajudar seus clientes a se prepararem para o futuro e assim manterem a rentabilidade de suas empresas”, disse em sua palestra sobre os “Sete grandes efeitos da competição entre grandes potências”. Na atual era histórica de choques sistêmicos, alguns efeitos importantes surgiram desde as pandemias até a guerra na Ucrânia. A competição geopolítica, uma corrida global por recursos naturais e um choque entre modelos políticos estão entre essas tendências.

“Não sei para onde o mundo vai, mas temos uma ideia ao analisar a história. Certamente estamos vivendo em um mundo confuso e abalado”, disse Tim Marshall, em sua palestra na Brokerslink Conference: “O poder da geografia na política global”. Entender o mundo bipolar até 2008 foi mais. Segundo ele, agora estamos em um mundo multipolar em que alguns estados árabes colocam o futuro à frente do passado, os países do sudeste asiático observam cada movimento dos Estados Unidos em busca de sinais de recuo diante de uma China ressurgente e muitas tentativas de potências de segunda linha acotoveladas para criar novas realidades antes do que pode se tornar uma nova Guerra Fria.

E isso certamente afeta muito os negócios e precisam ser entendidos e estudados para que as estratégias escolhidas sejam capazes de dar longevidade as empresas. Por isso, a Brokerlink não só escolheu o especialista para proferir a palestra, como deu a cada participante uma edição do livro “Power of Geography”. Nele, Marshall olha para o mundo multipolar através das lentes da geografia. Mergulha na história e nos eventos atuais para tentar entender como chegamos aonde estamos e para onde estamos indo. Inclui capítulos sobre Irã, Arábia Saudita, Turquia, Sahel, Reino Unido e Espaço. Todos são impactados por esses tempos incertos, um período que podemos olhar para trás como sendo entre duas Guerras Frias.

Além das incertezas políticas e econômicas, setor tem de avançar em tecnologia

Martin Thormahlen, Chief Technology Officer da Munich Re, alertou que duas “ondas” vão provocar uma revolução no setor de seguros: o metaverso e a computação quantum. “Prevê-se que os avanços tecnológicos permitirão que nossos mundos virtual e físico se transformem em um mundo abrangente que promete mudar tudo, desde a maneira como trabalhamos, como compramos e como fazemos transações em muitos aspectos de nossas vidas. O metaverso é um pilar central para este novo mundo”, enfatizou para uma platéia de cerca de 300 pessoas, sendo que apenas duas afirmaram ser ativas no Metaverso.

Segundo ele, o interesse das pessoas tem avançado tao rápido, que obriga que todos se preparem para isso, disse ele em sua palestra sobre como a tecnologia impactará seguros e gerentes de riscos em alguns anos. Citou como exemplo o banco J.P. Morgan, que usa metaverso para criar brand awareness nos seus clientes. Na Coreia do Sul, a tecnologia é usada para gestão de clientes. Bosch e Ford utilizam para formar e treinar colaboradores.

Já em relação a computação quantum, o executivo destacou a capacidade para descodificar ficheiros encriptados, a única defesa para os ataques cibernéticos.  “Os hackers podem roubar agora ficheiros hoje e esperar pelo desenvolvimento Quantum para abrir depois”, alertou.

Já o seguro embarcado, ou embedded, parece um próximo passo lógico e simples na digitalização, mas, na realidade, é uma grande mudança no modelo de negócios. Se os produtos forem oferecidos juntamente com a cobertura de seguro para os consumidores, certamente as seguradoras e corretores estarão agregando grande valor ao cliente. Thormalen citou também a evolução dos agregadores de plataformas com a democratização da Inteligência Artificial, e o broker led insurance, que evita duplicações de tarefas.

E o crescimento não pode ser a qualquer custo. É preciso abraças as políticas ESG

Steven Braekeveldt, CEO da Ageas, foi categórico ao afirmar que as companhias de seguros tradicionais não podem mais ignorar os princípios da sustentabilidade social, ambiental e governança. Substituir os KPIs (Key Performance Indicator, ou seja, Indicador-chave de Performance) por princípios regenerativos para o planeta Terra é o caminho que faz mais sentido para se manter ativo neste concorrido mercado e com lucro”, disse.

Segundo ele, as empresas ainda sem conexão com seus clientes estão fadadas a desaparecer no futuro. “É urgente para o setor de seguros fazer a conexão com a sociedade, com o ambiente, com os clientes. Sou CEO da seguradora e nunca recebi uma mensagem em meus seguros ou do meu corretor sobre como eu me sinto, se preciso de algo ou mesmo um feliz aniversario”, comentou em sua participação no evento da Brokerslink.

É o que tem feito a Nestle…

Laurente Freixe, gerente de risco da Nestle, com sede em Vevey, Suíça, afirma que “realmente vivemos um excesso de riscos. “Somos uma empresa que investe muito em gestão de risco para identificarmos qual parte vamos assumir e qual transferir em seguros. Os que mais nos preocupam atualmente são riscos de energia, escassez alimentar em caso de falta de matérias primas, a falta de fertilizantes com as complicações do conflito com Rússia, o maior fornecedor mundial, os ataques cibernéticos, a reputação e a retenção de talento”.

A boa notícia, segundo Freixe, é que a agenda dominante de empresas e governos envolve medidas para salvar o planeta, desde emissões de carbono zero até biodiversidade. A conexão desses dois temas é que nos debruçamos para acharmos soluções para uma agenda positiva”. Segundo ele, a Nestlé tem investido pesado para a emissão zero de carbono em 2050. Uma das acoes na prática citada pelo executivo é a compra de máquinas e bens para agricultores em todo o mundo através de 100 mil fornecedores por meio de seus funcionários que atuam em 100 nacionalidades diferentes.

Tempestade perfeita, segundo Jorge Luzzi

Os gestores de riscos enfrentam um desafio imenso para explicar ao board da companhia porque o seguro teve um aumento substancial de um ano para o outro, mesmo quando a sinistralidade se manteve estável. “Muitas vezes o diretor financeiro não quer saber da conjuntura mundial. Ele olha os indicadores macroeconômicos da sua região e se teve ou não sinistros. Desconhece a mutualidade do setor de seguros. O que é preciso neste momento, de hard market em re/seguros, é entender como a guerra, pandemias, inflação, insegurança alimentar podem afetar a companhia como um todo e gerar perdas para o grupo, principalmente em sua cadeia de suprimentos”, comenta Jorge Luzzi, presidente da APOGERIS, especializado em gestão de risco, na Brokerslink Conference.

Por outro lado, Raphael Tasselli, gerente de risco da Suzano, afirma que as companhias de seguros precisam se adaptar para apoiar o gestor de risco na conscientização dos executivos do grupo sobre estabelecer uma cultura de risco em toda a empresa para fazer frente a uma gama cada vez maior de riscos, tecnologias e fontes de dados. O grupo acaba de renovar seu contrato de seguros, por 18 meses. “Graças ao apoio da MDS conseguimos renovar com reajuste de apenas um dígito. Mas precisamos ampliar a grande de resseguradoras para obter cobertura para tudo. Estamos vivendo um hard market, o que exige avaliar a criação de uma cativa e a retenção de um valor maior de riscos, como D&O, que está realmente com valores muito elevados”.

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